
A Revolução Francesa que teve seu estopim a partir da reunião dos Estados Gerais em maio de 1789 marcou a história da humanidade para sempre. Noções da divisão dos poderes entre executivo, legislativo e judiciário, bem como um golpe de misericórdia no absolutismo e na monarquia de direito divino foram estabelecidas para todo o sempre. Um momento crítico da longa Revolução Francesa ocorreu em 1793, quando o Comitê de Salvação Pública, então órgão máximo da recém fundada República Francesa, ordenou que o rei Luís XVI fosse guilhotinado em praça pública. De certa forma, a França rompia os laços com uma tradição de mais mil anos na qual os reis se sucederam inexoravelmente sobre os súditos franceses. A volta, anos depois, de Luís XVIII e Carlos X, irmãos de Luís XVI, ao poder irá mostrar que este rompimento não foi tão duradouro assim. Podemos, para todos os efeitos, supor que aquele que pagou a maior conta da Revolução foi o próprio Luís XVI. De todos os reis franceses da dinastia Bourbon, Luís XVI foi talvez o que mais se preocupou com o bem estar de seu povo e o que mais batalhou para superar os privilégios feudais dos nobres e do clero. Nem mesmo Henrique IV, o fundador da dinastia e amado pelos franceses foi tão longe neste aspecto.
As sandices cometidas pelos antecessores imediatos de Luís XVI, sobretudo por Luís XIV e Luís XV, deixaram as finanças francesas em tal estado que medidas extremadas eram necessárias para salvar os cofres públicos. Mesmo sobre taxando o Terceiro Estado, formado pelos plebeus, o estado calamitante não seria revertido. Nessas condições, o ministro das finanças Necker demonstrou ao rei que a única saída seria cobrar impostos também sobre o Primeiro e o Segundo Estado (clero e nobreza), até então isentos de qualquer imposto. Luís XVI estava em um beco sem saída: como representante máximo da nobreza, o rei não poderia preterir a sua classe social; no entanto, como dirigente máximo do país, não poderia fechar os olhos à única saída visível de sanar as finanças nacionais. Para completar o quadro periclitante que se apresentava ao rei, as idéias liberais estavam ganhando a rua e a ascensão cada vez mais visível da burguesia, que apesar de enriquecida pertencia ao Terceiro Estado, era outra fonte de pressão que o rei não poderia ignorar.
As novas tendências que ventilavam pela sociedade francesa encontraram um reinado dirigido por um homem pusilânime, imaturo e ligeiramente ingênuo. Ao mesmo tempo em que gostaria de defender o povo, acreditava dever preservar prerrogativas da nobreza, não entendendo que as duas ações eram excludentes. Tivesse rompido definitivamente com os dois primeiros Estados, que tantos empecilhos colocaram às suas reformas, empecilhos esses que posteriormente lhe custariam a cabeça, e se aliado ao Terceiro Estado, a monarquia francesa teria resistido. Mas Luís XVI, embora libertário, era um nobre, e não via meios de trair a sua própria classe: devido a essa indecisão, o Terceiro Estado pediu sua cabeça e os nobres nada fizeram para impedir.
Obviamente a proposta de Necker para cobrança de impostos junto aos dois primeiros Estados não foi a única causa da Revolução Francesa. Há muito tempo a burguesia buscava uma oportunidade de se livrar da monarquia absoluta, de quem se servira em seu nascedouro, mas que agora era um empecilho. Segundo Eric Hobsbawm a Revolução Francesa foi uma revolução burguesa, ainda que tenha utilizado roupagem popular. Diante da proposta do governo para que a nobreza e o clero pagassem impostos, a primeira reação dos primeiros estados foi a recusa incondicional da proposta e a demissão imediata de Necker. Luís XVI insistiu na cobrança, mas teve de submeter a proposta à aprovação do Parlamento que negou veementemente. Contrariamente aos seus princípios, mas tentando utilizar um pouco da áurea que revestia a pessoa do monarca desde os tempos de Luís XIV, o rei compareceu pessoalmente ao Parlamento e exigiu que sua proposta fosse inscrita, ao que foi obedecido, sinal de que o poder real ainda não estava de todo enfraquecido. Dias depois, no entanto, ainda apegados aos seus direitos feudais, os nobres declararam ter agido por coação, o que tornava a inscrição ilegítima e que tal aprovação de novos impostos só poderia ser aprovada pelos Estados Gerais, reunião na qual os três estados da sociedade francesa se reunia para questões de suma importância. A nobreza e o clero não se davam conta, mas estavam cavando a própria cova em que seus privilégios seriam enterrados.
Tanto Necker quanto Luís XVI temiam a convocação dos Estados Gerais. A última vez que isso havia ocorrido fora em 1664. Desde então o rei nunca fora pressionado a este ponto, ou tivera suas propostas rebatidas com tamanha força. Os dois lados estavam irredutíveis: o rei não iria abandonar seu projeto de taxação sobre o Primeiro e o Segundo Estado e estes, por seu turno, não iriam abrir mão de seus privilégios milenares. Na fissura criada entre o rei, a nobreza e o clero, o Terceiro Estado encontrou a brecha necessária para fazer valer suas reivindicações. Convocar os Estados Gerais em 1789 não era a mesma coisa que convocá-lo em 1664: as idéias liberais estavam muito mais populares e o Terceiro Estado estava muito mais fortalecido do que jamais estivera. O rei temia que uma reunião dos Estados Gerais pudesse fomentar debates incapazes de serem controlados e que levariam o país a uma desordem civil, última coisa necessária a um país afundado na crise financeira. Luís XVI e Necker demonstraram nesse temor algo de profético. A nobreza e o alto clero, no entanto, imaginaram que recorrendo aos Estados Gerais poderiam impedir que o rei pusesse em prática seus projetos financeiros. Imaginaram que teriam total controle sobre a reunião e que poderiam manter o Terceiro Estado submisso, como aconteceu nas reuniões precedentes. A seu favor contava o regulamento de votação das petições feitas pelo governo: cada estado teria direito de um voto, o garantia o veto ao rei, uma vez que o Primeiro Estado (Clero) e o Segundo Estado (Nobreza) votariam juntas, independentes da posição do Terceiro Estado.
A nobreza começou a perceber que dessa vez não seria tão simples submeter o Terceiro Estado quando este fez duas exigências importantes: aumento do número de deputados, uma vez que o Terceiro Estado representava mais de 75% do total da população francesa e, o mais importante, exigiram que o voto referente a qualquer projeto fosse por cabeça, ou seja, cada deputado teria direito a um voto, e não um voto por Estado. Isso era muito importante, pois caso essa petição fosse aprovada, o Terceiro Estado poderia aprovar qualquer projeto de seu interesse e, dessa forma, o novo projeto financeiro de Luís XVI deveria ser aprovado. Podemos supor que os primeiros estados foram contra estas petições, mas Luís XVI postergou seu parecer, talvez para intimidar a nobreza ou, o que é mais provável, porque não sabia como se portar diante de tamanha pressão.
Esta foi a segunda chance que a nobreza e o alto clero, bem como o rei, tiveram a oportunidade de ceder espaço ao Terceiro Estado em tempo de impedir a tempestade que desabaria em breve. Como já sabemos, esta oportunidade foi perdida, e os primeiros estados continuaram irredutíveis quanto à manutenção de seus privilégios. Luís XVI teve a oportunidade então de romper com os aristocratas e abraçar a causa do Terceiro Estado, maioria da população francesa e que estava na linha de frente das idéias dos tempos modernos. O rei, no entanto, não quis opor-se abertamente à nobreza, de quem era o principal representante. De acordo com sua educação, ainda se considerava detentor do poder absoluto e de origem divina. Sem sombra de dúvidas, Luís XVI perdeu uma chance histórica.
Após os Estados Gerais tomarem assento, o Terceiro Estado não esperou muito para ir ao ataque: apesar de ter conseguido o aumento do número de deputados, insistia na votação por cabeça, enquanto os demais estados mantinham o voto por classe. Nem o rei se decidia a abandonar a aristocracia, nem esta abria mão de suas prerrogativas, o que levou o Terceiro Estado a se separar dos Estados Gerais e formar uma Assembléia Nacional, já que representavam à imensa maioria da população francesa. As cisões temidas por Luís XVI estavam se tornando realidade, e só estavam no início.
Luís XVI era de um temperamento e uma visão de poder completamente diferente de seu avô Luís XV e de seu tataravô Luís XIV. Ainda que tivesse uma visão absoluta de sua função como rei, Luís XVI julgava ser seu dever governar para o bem do povo francês, de quem se sentia o tutor. Seus antepassados imediatos julgavam que tanto o povo como as riquezas do país só existiam para que eles próprios pudessem usufruir. Entre as diversas inovações do reinado de Luís XVI, estavam a liberdade de imprensa e regulamentos para uma maior liberdade dos camponeses diante dos aristocratas. Diante dos desdobramentos posteriores da Revolução, o rei acabou arcando sozinho com a fúria do Terceiro Estado para com a aristocracia, pois era o testa de ferro de toda uma tradição e uma classe. Já a aristocracia acreditou que o sacrifício de Luís XVI, o boi de piranha, seria suficiente para aplacar a fúria da plebe. Mais uma vez se enganaram, pois o período conhecido como Terror, liderado por Robespierre, cobraria seu preço a membros de todas as classes.
A verdade é que os revolucionários, ao fundarem um regime que julgavam novo, recorreram a métodos medievais, como a execução pública de um símbolo do passado. Já o rei, que viveu sob o signo da indecisão, foi morto por aqueles que tentou ajudar de alguma forma e abandonado pela classe que se recusou a abandonar. Por merecimento, Luís XIV e Luís XV mereciam muito mais a guilhotina do que Luís XVI, que herdou um reino já atulhado em dívidas e conflitos, que não pode e não soube solucionar. Do ponto de vista humano, Luís XVI foi um dos melhores reis da França. Do ponto de vista do temperamento, foi um dos mais pusilânimes, o que lhe custou a cabeça na guilhotina.



